Uso, abuso e dependência de Álcool
Por Ruy Palhano Silva
O consumo de álcool é uma prática comum em muitas culturas, associado a
celebrações e encontros sociais. Contudo, o consumo excessivo e abusivo de
álcool tem se mostrado uma questão de saúde pública de proporções preocupantes,
afetando milhões de pessoas ao redor do mundo. Estima-se que aproximadamente
209 milhões de pessoas no mundo sofram de dependência alcoólica, representando
cerca de 3,7% da população global. No Brasil, 18,4% da população é considerada
bebedora abusiva, chegando a 25,6% entre os homens.
Considere-se uso do álcool a utilização não compulsiva ou patológica de
doses baixas desse substancia, de tal forma, que não aja um dano físico,
clinico ou psicológico, advindo do consumo. Outro aspecto relevante, é que
sempre houve um forte apelo histórico e social do consumo dessa substância ao
longo dos tempos.
Os
impactos do consumo abusivo de álcool são muitos e preocupantes. Dados recentes
do Vigitel 2023 mostram um aumento no consumo abusivo de álcool no Brasil, de
18,4% em 2021 para 20,8% em 2023. Esse aumento está relacionado a um
crescimento nas internações por doenças crônicas, como cirrose hepática e
doenças cardiovasculares. Além disso, o consumo excessivo de álcool está
associado a um aumento nos casos de câncer, como os de fígado, boca e esôfago,
destacando a gravidade desse problema para a saúde pública. Globalmente, o uso
abusivo de álcool está relacionado a cerca de 2,8 milhões de mortes por ano,
das quais 100 mil ocorrem no Brasil (Ministério da Saúde, 2023).
Além dos riscos físicos, o consumo abusivo de álcool está associado a
problemas graves de saúde mental. Como médico psiquiatra, posso afirmar que o
vício em álcool é uma condição complexa que afeta profundamente o cérebro e o
comportamento. A dependência alcoólica envolve alterações neuroquímicas no
cérebro, especialmente nos sistemas de recompensa cerebral (SRC), levando o
indivíduo a buscar repetidamente o consumo para experimentar os efeitos
agradáveis do álcool ou evitar os sintomas de abstinência. Isso cria um ciclo
vicioso difícil de romper sem ajuda profissional. O consumo contínuo de álcool
pode agravar transtornos mentais como ansiedade e depressão, além de aumentar a
vulnerabilidade a comportamentos autodestrutivos, como automutilação e
tentativa de suicídio. Estudos mostram que 28% das mortes atribuídas ao álcool
são resultado de lesões, incluindo violência interpessoal, o que evidencia
também os efeitos sociais negativos desse consumo (Nações Unidas Brasil).
O quadro clínico da dependência do álcool envolve uma série de sintomas
físicos, psicológicos e comportamentais que caracterizam a doença. Os
principais sinais e sintomas incluem:
1. Tolerância Aumentada: A
necessidade de consumir quantidades cada vez maiores de álcool para atingir os
mesmos efeitos. Isso ocorre devido à adaptação do organismo ao consumo
frequente, reduzindo o efeito do álcool ao longo do tempo.
2. Síndrome de Abstinência: Quando o
consumo de álcool é reduzido ou interrompido, o indivíduo pode apresentar
sintomas como tremores, sudorese, náuseas, ansiedade, irritabilidade e, em
casos graves, convulsões e alucinações. Esses sintomas são um forte indicativo
da dependência.
3. Perda de Controle: Dificuldade em
controlar a quantidade de álcool consumida, frequentemente levando ao consumo
excessivo, mesmo quando há intenção de moderar ou parar de beber. O indivíduo
pode tentar, sem sucesso, reduzir ou controlar o uso de álcool repetidamente.
4. Compulsão pelo Consumo: Um desejo
intenso e persistente de consumir álcool, muitas vezes com pensamentos
frequentes sobre beber e dificuldade de pensar em outra coisa. A compulsão pelo
consumo torna-se um dos principais fatores que perpetuam o ciclo de
dependência.
5. Impacto na Vida Pessoal e
Profissional: A dependência de álcool frequentemente interfere nas responsabilidades
pessoais, profissionais e sociais do indivíduo. Pode haver comprometimento do
desempenho no trabalho, conflitos familiares e abandono de atividades que antes
eram prazerosas.
6. Continuação do Consumo Apesar das Consequências: Mesmo diante de
problemas físicos (como doenças hepáticas), psicológicos (depressão, ansiedade)
e sociais (conflitos familiares e isolamento), o indivíduo continua consumindo
álcool, evidenciando a perda de controle sobre o comportamento.
Para lidar com esse problema, o tratamento da dependência alcoólica
envolve diversas abordagens, como acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia e
grupos de apoio, como os Alcoólicos Anônimos (AA). O acompanhamento
psiquiátrico é essencial, pois muitas vezes são necessários medicamentos para
controlar os sintomas de abstinência e reduzir a compulsão pelo consumo.
A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental (TCC),
ajuda o paciente a reconhecer os gatilhos que levam ao consumo e desenvolver
estratégias para lidar com essas situações de maneira mais saudável. Em casos
graves, pode ser necessária a internação para desintoxicação supervisionada.
A participação da família também é essencial, fornecendo suporte
emocional durante o processo de recuperação. Reconhecer os sinais de dependência
e buscar ajuda é fundamental para que a recuperação ocorra de forma eficaz.
Outra estratégia importante é a implementação de políticas públicas que
limitem o consumo de álcool e promovam a conscientização sobre os riscos
associados. Medidas como a restrição da publicidade de bebidas alcoólicas, o
aumento da taxação e a limitação da venda de álcool podem ser eficazes na
redução do consumo. Além disso, campanhas educativas são fundamentais para
informar a população sobre os perigos do consumo abusivo e sobre as opções de
tratamento disponíveis. A sociedade como um todo tem um papel importante em
reduzir o estigma associado ao alcoolismo, criando um ambiente que favoreça a
busca por ajuda sem julgamento.
O apoio familiar e comunitário também é um fator crucial no processo de
recuperação. A dependência de álcool não afeta apenas o indivíduo, mas também
suas relações interpessoais. O suporte de familiares e amigos é essencial para
que o paciente se sinta amparado e motivado a seguir o tratamento. Grupos de
apoio, como os Alcoólicos Anônimos, fornecem um espaço seguro para que os
dependentes compartilhem suas experiências e encontrem força na vivência de
outros que enfrentam desafios semelhantes. Esse tipo de suporte emocional é uma
peça fundamental para o sucesso do tratamento e para a manutenção da sobriedade
a longo prazo.
Em
conclusão, o consumo abusivo de álcool é um problema significativo que afeta a
saúde física, mental e social dos indivíduos. A dependência alcoólica deve ser
entendida como uma doença crônica que requer tratamento contínuo e
multidisciplinar. A conscientização e o apoio àqueles que enfrentam esse
desafio são essenciais para reduzir os impactos desse consumo na sociedade. O
papel da sociedade, políticas públicas e apoio familiar são fundamentais para
ajudar na recuperação e promover uma vida mais saudável e equilibrada. A
recuperação é possível, e buscar ajuda é um passo crucial nessa jornada.
Da Associação Brasileira de Psiquiatria, Ruy Palhano Silva é médico psiquiatra, professor, escritor e
palestrante.
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