Por
Francisco Escórcio, ex-senador da República *
Já
lembrei daquela velha fábula sobre um escorpião que pede carona a um sapo para
atravessar um rio e mata ambos pelo meio do caminho. "Eu não pude evitar, é
a minha natureza", diz o escorpião. Agora, vou relembrar de mais um
episódio da política do Maranhão em que o governador Carlos Brandão comprova
não conseguir resistir a sua própria natureza.
Outro
lamentável acontecimento desta triste crônica de deslealdades envolve o Tribunal
de Contas do Maranhão, TCE. Em uma manobra estritamente familiar, o governador
Carlos Brandão articulou a eleição de seu sobrinho, Daniel Brandão, para a
presidência da corte. Para consumar mais esse projeto de poder, foi necessário
impedir a reeleição para o cargo do conselheiro Marcelo Tavares, colega muito
próximo e desde sempre apoiador Carlos Brandão na vida pública e que, entre
outros cargos, foi deputado, presidente da Assembleia do Maranhão e chefe da
Casa Civil. O que torna este episódio particularmente grave não é apenas a
contínua apropriação dos espaços de poder pela família do governador, uma
prática já escancarada nos bastidores e que domina as rodas de conversa no
estado pela atuação de seu irmão, Marcus Brandão, considerado o governador de
fato do Maranhão.
Marcelo
Tavares é sobrinho do ex-governador José Reinaldo Tavares. Para quem tem pouca
ou seletiva memória, vale lembrar como se sabe de coisas no ‘ChicoBol’: José
Reinaldo foi o grande padrinho e mentor de Carlos Brandão. Foi ele o
idealizador e incentivador que viabilizou a entrada de Brandão na carreira política,
garantindo sua eleição para deputado federal em 2006. Acreditem, desta vez, o
escorpião avançou na sua própria natureza e se voltou para atingir o seu próprio
criador passando para trás um familiar seu. No início de abril, em mensagem que
fiz circular, eu já propunha um alerta sobre este apagamento deliberado da
própria história. Escrevi na ocasião: "Eu queria deixar aqui uma ideia
para o governador Brandão refletir. A minha vida de muitas décadas e,
especialmente, na política do Maranhão, me ensinaram que é fundamental cultivar
sempre os velhos amigos. Mas, também, com humildade, os verdadeiros aliados e
os companheiros de jornada.
Nos
últimos tempos, há um bom tempo, Brandão faz exatamente o contrário. Ele vem
abandonando muitos dos velhos amigos, os companheiros e os aliados de jornada.
E todos eles foram fundamentais na sua trajetória na vida e na política para
chegar até o cargo de governador. É tudo muito estranho. Do nada, o governador
Brandão começa a se esquecer de tudo isso e vai deixando todos para trás.
Esquecendo mesmo. Talvez o melhor exemplo seja o do ex-governador Zé Reinaldo,
padrinho político e fiador incontestável de toda a trajetória de Carlos Brandão
na vida pública. Por onde anda o Zé Reinaldo, governador Brandão? O senhor nem
o nome dele sequer cita mais..." Agora já se sabe de mais outros elementos
para a já conhecida resposta a essa minha reflexão, que vem de forma
implacável.
Ao
golpear o sobrinho de seu padrinho e criador na política Zé Reinaldo para
coroar o próprio sobrinho Daniel, Carlos Brandão reforçou que a gratidão é um
conceito que não habita o Palácio dos Leões. Esta atitude soma-se a uma longa
lista de vítimas dessa falta de compromisso de Carlos Brandão. O governador já
sumariamente abandonou a ex-governadora Roseana Sarney. Descumpriu também o
pacto histórico para a sucessão em 2026, rompendo o acordo com o atual ministro
do STF Flávio Dino e com o vice-governador Felipe Camarão.
Tudo
isto representa uma traição direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e
atingiu em cheio o ex-presidente José Sarney, figura central que havia
avalizado pessoalmente seu apoio no passado. Na política, assim como na
travessia do rio da fábula, Carlos Brandão tem seguido à risca a sua natureza
de escorpião ao trair os aliados. Pode acabar afundando tal como ele com as
próprias falsas promessas. Mas voltaremos a falar novamente. E vamos trazer
novos, esclarecedores e estarrecedores episódios da saga de traições e
deslealdades de Carlos Brandão, fruto de suas próprias desabonadoras e equivocadas
escolhas. Até lá!
*Também
ex-deputado federal e assessor especial de 4 presidentes da República.
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