O preço da covardia e o alerta para a sociedade
Por Cel. Furtado
A poeira da vaquejada ainda assentava quando o
silêncio da noite de seis de julho de dois mil e vinte e cinco do município de
Trizidela do Vale, no Estado do Maranhão, foi rasgado por disparos. Não eram
fogos de artifício, mas o som seco da covardia que ceifava a vida do policial
militar Geidson Thiago da Silva, conhecido como "Dos Santos". Em
folga, em um momento de lazer, ele ousou pedir ao prefeito de Igarapé Grande,
João Vitor Xavier, que baixasse o farol alto de seu carro, um pequeno incômodo
que se transformaria em tragédia. Segundo relatos, "Dos Santos" sequer
teve tempo de esboçar uma reação. Virou as costas, possivelmente já se
afastando, quando o prefeito, em um ato de fúria descabida, teria buscado uma
arma no carro e descarregado cinco tiros nas costas do PM. Cinco tiros. Na
escuridão da vaquejada, a luz que se apagava era a de um homem, um servidor, um
elo crucial na cadeia da ordem.
A alegação de "legítima defesa" por
parte do prefeito soa como um escárnio diante dos fatos narrados por
testemunhas e pelas imagens preliminares. Como pode ele alegar defender-se de
alguém que lhe dá as costas, desarmado, apenas por ter feito um pedido trivial?
A arma do crime, "extraviada", segundo o suspeito, é mais um indício
de que a verdade, se não for buscada com rigor, pode ser soterrada sob a lama
da impunidade.
Esse episódio, lamentavelmente, não é isolado. Ele
escancara uma realidade dolorosa: a vulnerabilidade daqueles que juraram nos
proteger. Policiais militares, muitas vezes mal remunerados, subequipados e
sobrecarregados, são a última barreira entre a sociedade e o caos. Quando essa
barreira é atacada, e pior, quando seus próprios integrantes são alvos de
tamanha barbárie, a confiança no sistema se esvai.
A morte de "Dos Santos" é um grito de
alerta para o Estado do Maranhão e para o Brasil. Não basta lamentar. É preciso
agir com veemência para garantir que a justiça seja feita, independentemente de
quem seja o agressor. O foro privilegiado não pode ser um escudo para a
barbárie, mas, sim, uma ferramenta para assegurar a lisura do processo.
Além da punição exemplar para o
responsável, é imperativo que o Estado reforce seu compromisso com seus
policiais militares. Isso significa oferecer condições de trabalho dignas,
treinamento adequado, equipamentos de ponta e, acima de tudo, apoio psicológico
e jurídico incondicional. A confiança dos policiais em sua instituição é o
alicerce para a eficácia de sua atuação. Se eles se sentem desamparados, se a
vida de um deles é ceifada com tamanha facilidade e a impunidade paira no ar, a
desmotivação e o sentimento de abandono podem corroer a espinha dorsal da
segurança pública.
A sociedade precisa compreender que a queda
dessa última barreira não é apenas a falência de uma instituição, mas o
prenúncio de um abismo. Quando a lei perde seu braço armado, quando a
autoridade é desrespeitada e seus agentes são vitimados pela covardia, o tecido
social se desintegra. O que resta é a lei do mais forte, do mais violento, do
mais impune.
Geidson Thiago da Silva, "Dos
Santos", não era apenas um policial. Ele era a representação de um ideal
de segurança e ordem. Sua morte, se não for um catalisador para a mudança e
para o fortalecimento das instituições de segurança, será a comprovação de que,
em Trizidela do Vale, e talvez em muitos outros cantos do país, a covardia
vestiu a máscara da impunidade, e a sociedade, silenciada, pereceu junto com
seu protetor.
Que esta crônica sirva não apenas como um
registro dos fatos, mas como um apelo veemente para que a luz da justiça e do
apoio institucional brilhe intensamente, impedindo que mais vidas e a própria
sociedade se percam na escuridão da covardia.
Cel. Furtado é Escritor. Presidente da
Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (AMCLAM). Presidente da
Academia de Letras dos Militares Estaduais do Brasil e do Distrito Federal
(ALMEBRAS). Vice-presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão
(FALMA).
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