NATAN CASTRO ENTREVISTA FERNANDO ATALLAIA PARA O BLOG TEMPO DE MÚSICA
Entrevista - Fernando Atallaia (Parte II)
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Blog Tempodemúsica- Já tem algum tempo que você vem divulgando em seu blog, e em alguns jornais da grande Ilha o Movimento Baluarte. Do que trata esse movimento e quais são os outros integrantes, além de você mesmo?
Fernando Atallaia- O
movimento foi fundado por mim em 2010, e contou com um lançamento
oficial no projeto ''Canto da Ema'', à época com sede em Paço do Lumiar.
Acreditamos ser o Baluarte o único movimento de caráter reflexivo e
afeito ao debate cultural no estado, e com a capacidade de pensar as
artes e o fenômeno cultural sob os mais diversos prismas. Há um
manifesto igualmente lançado, onde há a síntese englobadora de nossas
intenções. Além de mim, nomes expressivos da modernidade artística
maranhense integram o MSCB( sigla para Movimento da Mobilização social e
Cultural Baluarte), a exemplo dos cantores e compositores Fábio Allex,
Santa Cruz, Célia Leite, Allysson Ribeiro, Fran Moreira,Well Matos,
Riba Salgueiro, Marcos Boa Fé, Célia Sampaio. Só para citar alguns. Há
representantes também nas cidades de Raposa, Pinheiro, São José de
Ribamar, Alcântara, Caxias, Paço do Lumiar e Pedreiras.
Blog Tempodemúsica-
A música produzida no Maranhão começou a ser denominada por alguns no
início dos anos noventa, como “MPM”. Sendo a mesma uma regionalização da
sigla nacional conhecida como “MPB”, gostaria que você falasse da sigla
e nos dissesse em que ponto ela se difere de outra sigla criada por
você, a “MPU”?
Fernando Atallaia- O
Movimento Baluarte repudia essas designações grosseiras e limitativas.
Quando lançamos a MPU, que significa Música Popular Universal, foi
justamente como maneira de mostrar o quanto se pensou de forma medíocre o
fazer musical no Maranhão. É uma forma de dizer não a essas
nomenclaturas escrotas que tentam reduzir o artista do estado a uma
configuração pequena. À própria pequenez. Diga-me, você já ouviu falar
algum dia em MPC, Música Popular Carioca? A resposta é não. Mas aqui no
Maranhão foi colocado e colou. E o que nós ganhamos com isso? A nefasta
posição contrária de nosso povo e seu niilismo por nossa musicalidade.
Sua negação. Nosso movimento é contra esse reducionismo. Essa coisa de
música maranhense não existe. Nunca existiu, assim como não existe MPI,
Música Popular Irlandesa, por conseguinte, não existe MPB. Esse
protecionismo é bobo, imaturo e atrapalha na construção de uma real
dimensão de nossa portentosa cultura musical. Em contrapartida, agora
todos tem a MPU, que pode ser ao mesmo tempo a música do Maranhão e o
Folk norte-americano; a música Celta e o Samba brasileiro. A quem acha
que essa discussão acaba no campo da estética, gostaria de dizer que
estamos falando da deflagração de uma realidade que nos foi usurpada,
ultrajada, roubada. Sempre nos privaram do direito de ser
universal. Podaram-nos e aceitamos. O movimento Baluarte indica o
caminho para um despertar. Para a consciência multicultural num
estado onde a música folclórica impera como símbolo maior de nossa
representatividade. O que é uma grande mentira.
Blog Tempodemúsica-
O Maranhão é reconhecido atualmente como o Estado que possui a maior
diversidade de ritmos do Brasil. Ainda no século XIX era conhecido como
Atenas Brasileira, haja vista a quantidade de intelectuais que surgiam
vindos dessas terras. Em 2007 o tambor de crioula foi alçado a
patrimônio cultural imaterial Brasileiro, temos dois dos maiores poetas
brasileiros da atualidade Ferreira Gullar e Nauro Machado, fora as
demais personalidades que se sobressaem no campo da cultura, todos
filhos do Estado. Em face dessas constatações qual seria a causa, se é
que existe uma ou várias, que fazem o Estado não possuir um lugar de
expressão na cultura no âmbito nacional nos dias atuais?
Fernando Atallaia-
Essas ‘’honrarias’’, homenagens e mesmo a nossa diversidade
rítmico-musical nunca atuaram como protagonistas do espetáculo. Esta é a
razão. Nossas expressões mais ricas sempre foram utilizadas ao bel
prazer daqueles que vez por outra se utilizam delas como pano de fundo
para a construção de um marketing ilusório. Diferentemente de estados
como Bahia, Pará e Pernambuco, onde alguns governos investiram na
Cultura, concebendo o seguimento como força autóctone, livre e área
emblemática da governabilidade. Haveria de ter, claro, um esforço
conjunto e agregador que na prática teria de mobilizar a indústria
cultural( fonográfica, editorial, e de marketing cultural) ao lado das
políticas públicas para Cultura, para se iniciar o processo de chegada a
este âmbito. Agora falar nestes termos num estado onde se aprisiona o
seguimento em ridículos dois únicos momentos, e dentro da parca
promoção de eventos é no mínimo patético. Qualquer indivíduo sem o
mínimo de consciência do que acontece em nossa capital , em nosso
estado, saberá conhecer o Maranhão pelo Carnaval e São João, duas datas
que hoje são tidas como sendo a voz da cultura e dos artistas de todo
um estado, rico, literária e artisticamente, como você bem frisou. Aí a
mim, eu pergunto: nossa Música Erudita, não existe? Nossas bandas de
Rock in Roll não existem? Nossas Artes Plásticas não existem? E a nossa
Dança, o nosso Teatro? Vou ficar por aqui. Porque boa parte dessa infame
realidade imposta por nossos governos tem muita conivência de alguns
viciados em alimentar essa cultura do Pão e Circo. Então, é
simples. Enquanto este conceito não mudar, não teremos essa tão
esperada representatividade nacional. Esse estopim cultural que já
deveria ter acontecido desde os anos 70.
Blog Tempodemúsica-
A qualidade de nossos compositores é conhecida por muitos há bastante
tempo. No final dos anos sessenta e inicio dos anos setenta vimos a
música da Bahia e logo depois a de Minas Gerais explodindo no cenário
musical brasileiro, nos anos oitenta tivemos o rock de Brasília, nos
noventa tivemos a explosão do Mangue Beat em Recife e atualmente a
música Paraense vive seu apogeu de reconhecimento. A seu ver a música
maranhense será a próxima? Ou não? Por que ainda não chegou a hora? E
qual seria a bola vez?
Fernando Atallaia-
A exaustivamente intitulada música maranhense não tem vez pelo simples
fato de ela nem sequer existir. Música é música e sempre retorna ao seu
conceito originário. Música é combinação de sons, vozes, intenções, e
música popular é diálogo com o povo, com o público. O que a música
produzida hoje no Maranhão tem de relação dialógica com o seu público,
com as pessoas, com o seu povo? Absolutamente nada ou quase nada. Uma
música ‘’explode’’ em seu próprio estado quando representa as aspirações
de seu povo e não as conveniências de seus governantes. Veja, o
Manguebeat. Os recifenses, os pernambucanos veneram, protegem e foi
sucesso lá, primeiramente. Em nosso estado há bons compositores, mas
eles são espinafrados pelas secretarias, pela má vontade, pelas
burocracias, pelos governos. Em outros estados já seriam ídolos e
viveriam de sua arte musical. Aparições isoladas não vão resolver e
minimizar o problema. Estamos no olho do furacão. No centro de um
problema sério. De um problema cultural que deve ser pensado sob pena de
nossas maiores expressões musicais e artísticas não fornecerem ao seu
tempo e à posteridade o que construíram ao longo de suas vidas como
legado. Somos um estado que não dar a mínima para a memória musical e
carreiras como as de Alcione, Rita Ribeiro, Dilú Melo, Zeca
Baleiro, João do Valeu e alguns outros pertencem ao plano isolado da
produção fonográfica, portanto não nos representam.
Blog Tempodemúsica-
Temos duas instituições uma do Estado (SECMA) e outra da cidade de São
Luis (FUNC), responsáveis pelo fomento da cultura no Maranhão. Qual
sua opinião sobre os trabalhos das duas e qual papel elas vem
desempenhando na disseminação da cultura em nosso Estado.
Fernando Atallaia-
Não fomentam, nem desempenham papel algum. Abrem as pernas para os
artistas de outros estados a quem pagam com nosso dinheiro cachês
exorbitantes, e dão migalhas para os seus próprios artistas a quem
deveriam gerir, respeitar e nutrir. São instituições que gravitam em
torno da política de seus mandatários e não apresentam um projeto
contínuo, consistente e permanente à classe artista para quem, em tese,
deveriam trabalhar. São duas instituições que operam com a mesma lógica e
o mesmo conceito que é o de destratar os artistas de nosso estado lhes
oferecendo o mínimo e dando o máximo aos das outras regiões. É aquela
velha prática do endeusamento daquilo que pode ser vendido como
bom para a população local. Como a ‘’grande atração’’. Essas
secretarias são guiadas pelos meios. Quero dizer, meios de comunicação.
Deu no The Voice, contrata. Deu no Big Brother, contrata. É por aí.
Ambas não tem compromisso algum com o fortalecimento de nossa identidade musical, sua viabilidade e sua difusão.
Blog Tempodemúsica-
Gostaria que você comentasse a influência que a política propriamente
dita, tem sobre a classe cultural do Estado. E também explicasse porque
duas datas, a primeira o Carnaval e a segunda os Festejos Juninos
parecem depois de uma análise nocivas à cena cultural do Estado.
Fernando Atallaia-
A grande maioria dos artistas maranhenses quer dignidade, respeito e
quer viver da música que produz. Acontece que o estado não propicia isto
e para adestrar a todos, ainda se valendo do que ele mesmo ( estado)
cria, passa uma ideia falsa de oportunidade. Tocar no São João e no
Carnaval, seriam duas oportunidades. Há também, uma ala de artistas que
há muito não são artistas ou talvez nunca o tenham sido, são burocratas,
fazem parte do sistema de exclusão cultural dos governos, por essa
razão se sentem confortáveis. Uma aprazibilidade perigosa para um estado
que não é reconhecido, nem tampouco respeitado por seu povo, ao menos
musicalmente. Ouço uma frase há décadas que diz ‘’ tira esse disco daí,
isso é música maranhense, não presta’’. A gente ouve isso, todos os
dias. Geraram para o público maranhense uma ojeriza à sua
própria música, à sua revelia, coisa intencional. E de quem é a culpa?
De quem estar lá e que poderia fazer alguma coisa, mas não faz. O cara é
cooptado, se cala, ouve ‘’Calcinha com Vinagre’’, Mocotó do Forró’’ o
dia todo na Secretaria, mas dentro do carro tira onda de intelectual,
vai ouvir Heitor Villa-Lobos, dar
uma de agente cultural, vai ler meu blog. Esse dualismo tem levado o
Maranhão para o fundo poço e não é de hoje. Mas isso é na superfície.
Obviamente, que há engrenagens muito mais pesadas que obstruem de forma
direcionada a passagem para a verdadeira condição de grande musicalidade
que nós somos.
Blog Tempodemúsica-
Fala-se hoje na formação de uma frente com alguns poucos artistas como
você, tal frente teria a missão de fazer o resgate de artistas
maranhenses do passado em diversas áreas da cultura. Visando também um
encontro de gerações haja vista que muita gente da nova geração
desconhece tais nomes. De que forma esse encontro se dará e o que todos
os envolvidos esperam do projeto?
Fernando Atallaia- Eu
não sei nem saberia exatamente sobre esta frente. Acho que a palavra em
si é meio fantasmagórica, abstrata demais e até golpista. Me propuseram
isto uma vez, liderar uma frente e eu não topei. Disse não de cara. É
como se uma turma fosse salvar a nossa Cultura em uma semana. Acho
pejorativo, surreal. Frente, eu não concebo. Mas nós do MSCB estamos
sim nos reunindo e nossos posicionamentos são sempre pautados em nosso
Manifesto. O problema da Cultura do Maranhão passa, a meu ver, por
ausências gritantes. Precisamos formar público/plateia para nossa música
e arte autorais. Precisamos fortalecer nossa identidade cultural com
ações sistemáticas e permanentes. Precisamos descentralizar nossa
musicalidade em forma de shows para os bairros periféricos e precisamos,
sobretudo, acabar com as ‘’pequenas corrupções’’ culturais nas
instituições. Aquela coisa de se inserir quem tem mais a ver com suas
convicções pessoais em detrimento do conjunto. Esse espírito de
‘’amizadezinha’’, de panelinha precisa ser expurgado o quanto antes.
Faz-se necessário em caráter de emergência o resgate de nossa memória
musical e, claro, a contemplação de nossa modernidade. Esse elo precisa
ser construído. Falta apoio para a rapaziada que está fazendo som
atualmente na cidade, fazendo Poesia, Escultura, arte em geral. Falta
apoio e tudo o mais. Mas certamente não faltará apoio aos shows vindos de outros estados e que serão
comprados à preço de ouro pelas secretarias de cultura do estado e da capital no próximo
evento organizado por ambas. Disso, você pode ter certeza. Mas é
contra essa postura que devemos reagir. Todos ganharão. Esperamos que o
debate se acirre e que mais e mais pessoas, artistas ou não participem.